quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Sugestão de leitura para o primeiro dia de aula

Realmente este é um dos meus textos preferidos para trabalhar no início das aulas. Gosto do jeito bem humorado da escrita. Não parece realmente com o que fazemos sempre.

Minhas férias, pula uma linha, parágrafo.

O primeiro dia de aula é o dia que eu mais gosto em segundo lugar. O que eu mais gosto em primeiro é o último, porque no dia seguinte chegam as férias.
Os dois são os melhores dias na escola porque a gente nem tem aula. No primeiro dia não dá para ter aula porque o nosso corpo está na escola, mas a nossa cabeça ainda está nas férias. E, no último, também não dá para ter aula porque o nosso corpo está na escola, mas a nossa cabeça já está nas férias.
Era o primeiro dia e era para ser a aula de português mas não era porque todo mundo estava contando das férias. E como todo mundo queria contar mais do que ouvir, o barulho na classe estava mesmo ensurdecedor. O que explica o fato de ninguém ter escutado a professora gritando para a gente parar de gritar. Todo mundo estava bem surdo mesmo. Mas quando ela bateu com os livros em cima da mesa a nossa surdez passou e todo mundo olhou para ela.
Ela estava em pé, na frente do quadro e ficou em silêncio, com uma cara bem brava, olhando para a gente.
Quando um professor está em silêncio com uma cara bem brava olhando para você, é melhor também ficar em silêncio com uma cara de sem graça olhando para um ponto qualquer que não seja a cara brava do professor.
A professora puxou a cadeira dela e se sentou.
Atrás dela, no quadro negro, eu vi decretado o fim das nossas férias e o fim do nosso primeiro dia de aula sem aula. Estava escrito:
“Redação: escrever 30 linhas sobre as férias.”
(...)
Quando a gente transforma as nossas férias numa redação, elas não são mais as nossas férias, são a nossa redação. Perdem toda a graça. (...)
De repente, as nossas férias ficaram silenciosas. Onde já se viu férias sem barulho?
E, além do mais, eu tenho certeza de que a professora nem quer saber de verdade como foram as nossas férias. Ela quer só saber como é a nossa letra e se a gente tem jeito pra escrever redação. Aqueles dois meses inteirinhos de despreocupações estavam prestes a virar 30 linhas de preocupações com acentos, vírgulas, parágrafos e ainda por cima com a letra legível depois de tanto tempo sem treino.

Christiane Gribel. Minhas férias, pula uma linha, parágrafo. São Paulo, Salamandra

Boa leitura.
Camila Garoli Vilela

2 comentários:

Anônimo disse...

Otimo texto... Li o livrinho ontem... e achei o maximo...

Anônimo disse...

Gostei muito da leitura ,pois é bem a realidade de nossas crianças

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